Ex-alunos salesianos fazem encontro histórico em Campo Grande

O Instituto São Vicente recebeu no último sábado (02/05) um grupo de senhores com muitas histórias para contar. As idades variaram entre 40 e 75 anos. A maioria estava era acima dos 55. Todos tiveram em comum um passado vivido na adolescência e juventude nas casas salesianas. Patronato Santo Antônio, em Cuiabá, Colégio Dom Lasagna, em Araçatuba, Escola Agrícola São Vicente, em Campo Grande e aspirantado da Lagoa da Cruz foram as casas que marcaram o início das histórias de cada um dos cerca de 80 participantes do encontro de ex-alunos dessas casas salesianas.
O encontro foi histórico porque é a segunda vez que o grupo se reuniu em Campo Grande. A última vez que esse encontro aconteceu foi em 2016, há 10 anos. Por isso, as saudades eram grandes. Algumas perdas foram sentidas neste novo encontro. Os amigos do grupo que faleceram nesse período foram lembrados nas orações e também nas conversas animadas para recordar os ‘bons tempos’.
A noite de sexta começou em música e terminou em lágrimas — do jeito certo
Com a dificuldade de reunir todos em um único dia, o encontro foi dividido em duas partes. A primeira aconteceu na noite de sexta-feira (01/05), no salão de festas do Poliesportivo Dom Bosco. Alguns levaram família, esposa e filhos para o encontro. Além das animadas conversas, não poderia faltar a música. A cantoria foi noite adentro. Entre as músicas, destacaram-se alguns depoimentos. Renato da Rocha, que chegou ao tirocínio salesiano em 1977, emocionou os presentes ao lembrar a importância dos salesianos na própria história.
Já Carlos Aparecido Elias de Souza, um dos organizadores, que estudou em Araçatuba e na Lagoa da Cruz entre 1977 e 1982, sintetizou o espírito do grupo com precisão cirúrgica: “O que somos hoje foi fruto dessa formação salesiana.” Ele adiantou que a comissão — composta também por Lúdio da Silva, Edgar Belmondes e Lúcio Alberto Gazal, após seis meses de preparação — pretende transformar o evento em data fixa no calendário anual.
Na manhã de sábado, um galinheiro de quarenta anos fez um homem adulto se emocionar
Já no sábado pela manhã, a emoção tomou conta dos ex-alunos, especialmente aqueles que viveram anos inteiros como alunos da “escolinha agrícola” ou como aspirantes no Instituto São Vicente. Uma visita guiada pelos espaços da casa salesiana trouxe boas memórias a cada um. João Turbino, que estudou no “Coxipó” de 1976 a 1979 e depois foi aspirante na Lagoa da Cruz em 1980, não escondeu a emoção ao visitar o galinheiro onde trabalhou ao lado do saudoso “Mestre Paulo Pires” no cuidado com as galinhas, coleta de ovos e limpeza dos espaços. O local ainda está preservado, como se o tempo tivesse tido bom gosto de parar ali, há mais de quarenta anos. Jota Márcio França de Carvalho, hoje corretor de imóveis que passou pela instituição dos 9 aos 18 anos, relembrou com carinho os tempos em que “cortava napier” na granja. A visita incluiu ainda o mausoléu dos salesianos, onde a leitura dos nomes nas lápides funcionou como um inventário silencioso de vidas inteiras dedicadas à missão de Dom Bosco.
Depoimentos provam que a pedagogia salesiana não tem prazo de validade
A centralidade da formação salesiana ficou evidente nos testemunhos. José Rosa Bezerra, engenheiro civil de 63 anos, foi taxativo: sem os salesianos, não seria “nem 1% do que é hoje” como ser humano, profissional e cristão, descrevendo essa experiência como “a graça de Deus me abraçando”. Jota Márcio completou o pensamento com uma frase que poderia ser o slogan do fim de semana inteiro: “A gente saiu daqui, mas isso aqui não sai da gente.”
Ex-salesianos recebem abraço agradecido
Paulo Bezerra, o querido “Mestre Paulinho”, hoje leigo aos 71 anos, celebrou ao ver que muitos ex-alunos seguiram vocações profissionais nascidas nas oficinas de instalação elétrica e nos trabalhos da chácara, dizendo sentir que “ainda estamos naquele tempo”. Já o senhor Euclides Viana, outrora “Mestre Euclides”, que atuou no Patronato Santo Antônio, confessou sentir-se como um “vovô” da turma e emocionou-se ao descobrir que seu modo silencioso de ser havia servido de bússola para tantos jovens — prova de que educar pelo exemplo não é clichê, é método. Outro ex-salesiano presente no encontro e bastante festejado foi o músico Francisco Teixeira, antigo “Padre Teixeirinha”. Ele foi muito festejado pelos seus ex-alunos, até hoje agradecidos por sua imensa habilidade em formar gerações através da arte nas décadas de 1970 e 1980, em Cuiabá.
Na Santa Missa, o Padre Gildo propôs três posturas para quem quer envelhecer bem
O ápice do encontro foi a Santa Missa celebrada pelo Padre Hermenegildo Conceição Silva, o “Padre Gildo”, atual reitor da UCDB, com a participação do Padre Tiago Figueiró e do Padre Osmar Bezutte. Sintonizado no início do mês de Nossa Senhora Auxiliadora, Padre Gildo ancorou sua homilia no magistério do Papa Francisco para propor três posturas vitais. Sobre a esperança, foi direto: “Quantas dificuldades na vida de cada um… mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança!” Sobre o deixar-se surpreender por Deus, recorreu às Bodas de Caná: “Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas.” E sobre a alegria, encerrou com a convicção de quem sabe o que diz: “Há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria.”
Padre Tiago resgatou Dom Bosco em pessoa — ou quase isso
Logo no início da celebração, o Padre Tiago Figueiró, falando em nome da Inspetoria de Campo Grande, trouxe à tona as raízes históricas do movimento, lembrando que a Associação dos Ex-alunos nasceu em 1870, quando Carlo Gastini e outros antigos alunos se reuniram para homenagear Dom Bosco. Ele citou palavras do próprio fundador, ditas em 1885, ao rever seus ex-alunos já maduros: “Vejo que muitos de vós já estão calvos, de cabelo branco… Já não sois aqueles rapazes que eu tanto amava; mas sinto que agora vos amo ainda mais do que outrora.” Padre Tiago reforçou a importância das “Uniões Locais” e relembrou o pedido final de Dom Bosco: que, onde quer que estejam, seus ex-alunos se mostrem sempre “bons cristãos e homens honestos” — e transmitam às próprias famílias a educação recebida no Oratório.
“Eis-me aqui, Senhor” fechou o encontro e abriu o próximo
O encerramento coube ao Padre Osmar Bezutte, que conduziu um coro uníssono com sua composição “Eis-me aqui, Senhor” — melodia que atravessa décadas na memória afetiva de todos os presentes e que, naquele momento, soou menos como despedida e mais como promessa. O almoço de confraternização selou a jornada com o sabor de quem volta para casa. E se Dom Bosco, lá de onde estiver, pôde observar oitenta de seus filhos — calvos, de cabelos brancos, alguns ainda com os olhos marejados do galinheiro — é de se imaginar que sorriu como raramente se vê.’





























Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.