Professor do Colégio Salesiano São Gonçalo pesquisa a ‘Amorevolezza’* como resposta à indisciplina escolar

O professor Gabriel Victor Fernandes da Silva, do Colégio Salesiano São Gonçalo, em Cuiabá, dedicou sua pesquisa de pós-graduação em Salesianidade à aplicação do Sistema Preventivo de Dom Bosco diante de dois desafios da escola contemporânea: a indisciplina e o desgaste do educador. No trabalho intitulado “O Sistema Preventivo na escola: a amorevolezza como antídoto à indisciplina e ao desgaste do perfil educador”, ele analisa como a presença, o acolhimento, a proximidade e o acompanhamento podem interferir nas relações entre professores e estudantes.
A pesquisa parte dos três pilares do Sistema Preventivo, razão, religião e amorevolezza, e concentra a análise neste último princípio. O estudo sustenta que a proposta educativa de Dom Bosco, nascida no século XIX a partir do trabalho com jovens em situação de vulnerabilidade, mantém possibilidades de aplicação diante das mudanças que atingem a convivência escolar, a autoridade pedagógica e a identidade docente.
Prevenir antes de punir
Gabriel desenvolve a pesquisa a partir de revisão bibliográfica de caráter qualitativo e estabelece diálogo entre autores ligados à tradição salesiana e pesquisadores da educação. Dom Bosco, Pietro Braido, Tarcísio Scaramussa, Geraldo Caliman, Renato Kraide Soffner, Marcos Sandrini, Maurice Tardif, António Nóvoa e Paulo Freire estão entre os referenciais utilizados para aproximar o Sistema Preventivo dos problemas encontrados na escola atual.
Ao tratar da indisciplina, o trabalho evita reduzi-la ao descumprimento de regras ou atribuí-la somente ao comportamento do estudante. A análise considera fatores sociais, culturais, familiares e institucionais e discute a crise da autoridade pedagógica como parte de uma mudança nas relações entre educadores e educandos. Nesse contexto, o Sistema Preventivo apresenta uma mudança de perspectiva: a disciplina deixa de depender primeiro da coerção e passa pela qualidade dos vínculos estabelecidos no processo educativo.
A prevenção, nessa concepção, não significa ausência de normas. O estudo aponta para uma autoridade construída pelo diálogo, pela coerência, pelo acompanhamento e pela corresponsabilidade. A disciplina passa a ser compreendida como resultado da participação do estudante no processo formativo e da construção de autonomia e responsabilidade.
Amorevolezza ultrapassa a ideia de afeto
Um dos pontos centrais da pesquisa está na compreensão do termo italiano “amorevolezza”. Gabriel mostra que o conceito não se limita ao amor, ao carinho ou à manifestação de afeto. Na pedagogia de Dom Bosco, ele envolve presença educativa, proximidade, escuta, acolhimento e compromisso com o desenvolvimento do estudante.
Essa concepção também estabelece uma fronteira entre acolhimento e permissividade. Reconhecer a dignidade do educando não significa ignorar comportamentos inadequados. A proposta consiste em compreender suas causas, dialogar com os envolvidos e buscar respostas educativas que restaurem as relações, em vez de limitar a intervenção à punição.
O vínculo entre professor e estudante assume, assim, uma função preventiva. A pesquisa considera que o sentimento de pertencimento, a participação e o reconhecimento do educando podem contribuir para reduzir conflitos e situações de exclusão, ao mesmo tempo em que favorecem a autonomia. A amorevolezza aparece, portanto, não como recurso sentimental, mas como estratégia pedagógica inserida no cotidiano escolar.
A pesquisa também volta o olhar para quem educa
A segunda frente do estudo desloca a atenção para o professor. Gabriel aborda o aumento das demandas institucionais, a intensificação do trabalho e a complexidade das relações educativas como elementos associados ao esgotamento, à desmotivação e à perda de sentido profissional. A partir desse cenário, investiga de que maneira o Sistema Preventivo pode contribuir para recuperar a dimensão humana da docência.
Na perspectiva salesiana examinada pelo autor, o educador não se restringe à transmissão de conteúdos. Sua atuação alcança os espaços de convivência e pressupõe presença junto aos estudantes. O professor acompanha, orienta e participa do processo formativo, enquanto a coerência entre aquilo que ensina e aquilo que pratica contribui para a construção de sua autoridade.
A pesquisa relaciona essa presença ao próprio fortalecimento da identidade docente. Ao recolocar as relações humanas no centro da educação, o Sistema Preventivo oferece ao professor uma referência para compreender seu trabalho para além das tarefas administrativas, das exigências institucionais e da transmissão do conhecimento.
Uma pedagogia do século XIX diante das questões do presente
Nas considerações finais, Gabriel sustenta que razão, religião e amorevolezza permanecem capazes de dialogar com a educação contemporânea. O estudo identifica na amorevolezza possibilidades para prevenir a indisciplina, criar vínculos baseados na confiança e no acolhimento e recuperar a dimensão ética e relacional da profissão docente.
O autor também afasta uma leitura da amorevolezza como sentimentalismo. Na dissertação, ela assume a condição de categoria pedagógica associada ao afeto, à presença e ao reconhecimento do outro e se contrapõe a práticas baseadas somente em respostas técnicas ou punitivas. A pesquisa aponta ainda possibilidades para novos estudos sobre saúde mental de professores e estudantes, presença educativa nos ambientes virtuais e tecnologias digitais, inclusão escolar e diversidade.
Da experiência salesiana à pesquisa
Gabriel Victor Fernandes da Silva tem 27 anos, é licenciado em Letras, Português e Inglês, e cursa mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso. No Colégio Salesiano São Gonçalo, leciona Língua Portuguesa, Ensino Religioso e Filosofia.
Ex-aluno salesiano e participante da vida paroquial desde a infância, ele levou para a pesquisa acadêmica uma experiência iniciada antes de sua atuação como professor. O trabalho aproxima essa trajetória da reflexão sobre uma pergunta presente no cotidiano de quem educa: como prevenir conflitos sem transformar a escola em espaço de vigilância e punição?
A resposta encontrada na tradição de Dom Bosco passa pela presença. Na leitura proposta pela pesquisa, estar entre os jovens, conhecê-los, ouvi-los e acompanhá-los não constitui uma atividade paralela ao ato de ensinar. É parte dele. Mais de um século depois das primeiras experiências de Dom Bosco com a juventude de Turim, a amorevolezza retorna à sala de aula como objeto de estudo e como possibilidade para pensar a relação entre quem ensina e quem aprende.
* A palavra italiana amorevolezza, que não possui tradução exata em português, expressa na pedagogia de Dom Bosco uma forma de educar baseada no afeto demonstrado por meio da presença, da proximidade, da escuta, do acolhimento e do acompanhamento. Mais do que gostar do estudante, significa fazer com que ele perceba, nas atitudes do educador, que é conhecido, respeitado e querido, sem que isso elimine limites, orientação e responsabilidade.
Confira abaixo o artigo completo:

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