A Síndrome de Filipe e a de André

Tudo começa quando, perante a grande multidão faminta, Jesus convida os discípulos a dar-lhes de comer
Os pormenores de que falo são, o primeiro, quando Filipe diz que não é possível assumir esse apelo, devido à quantidade de gente presente; e, depois, quando André, por sua vez, faz notar que “está aqui um jovem que traz cinco pães de cevada e dois peixes”, para, a seguir, subvalorizar esta mesma possibilidade com um simples comentário: “mas o que é isto para tanta gente?” (v. 9).
Desejo simplesmente partilhar com todos, caríssimas leitoras e leitores, como nós, cristãos, que recebemos o pedido de partilhar a alegria da nossa Fé, algumas vezes, sem saber, podemos ser contagiados pela síndrome de Filipe ou de André. E, algumas vezes, até por ambas!
Na vida da Igreja, bem como da Congregação e da Família Salesiana, não faltam – nunca faltarão – desafios. O nosso não é um chamado a formar um grupo de pessoas em que se procura apenas estar bem, sem incomodar nem ser incomodado. Não é uma experiência feita de certezas pré-fabricadas. Fazer parte do Corpo de Cristo, não nos deve distrair ou alhear da realidade do mundo, tal qual ela é. Pelo contrário, impele-nos a estar plenamente envolvidos nas vicissitudes da história humana. Isto significa, antes de tudo, ver a realidade não só com os olhos humanos mas também – e sobretudo – com os olhos de Jesus. Somos convidados a responder guiados pelo amor que encontra a sua fonte no seu Coração, isto é, a viver para os outros como Ele nos ensina e mostra.
A síndrome de Filipe
A síndrome de Filipe é sutil. E, por isso, também muito perigosa. A análise que Filipe faz é certa. Correta. Sua resposta ao convite de Jesus não é errada: seu raciocínio segue uma lógica humana muito linear. Sem defeitos. Vê a realidade com seus olhos humanos, com mente racional. E, ao fim, inviável. E, perante este modo “racional” de proceder, o faminto desiste de interpelar-me: o problema é dele, não meu. Para sermos mais precisos, à luz daquilo que se vive diariamente, um refugiado devia estar em sua casa e não incomodar-me; o pobre e o doente deveriam arranjar-se: não me cabe a mim ser parte do seu problema, muito menos buscar-lhe a solução. Esta é a síndrome de Filipe, um seguidor de Jesus. Mas, embora a sua maneira de ver e de interpretar a realidade seja firme, ainda está a anos-luz distante da do seu Mestre…
A síndrome de André
Segue-se a síndrome de André. Não digo que seja pior que a de Filipe. Mas falta pouco para ser mais… trágica. É uma síndrome-limite. E cínica. Vê alguma oportunidade possível. Mas não passa disso. Há uma pequeníssima esperança: mas humanamente não é viável… Então, chega-se ao ponto de desqualificar tanto o dom quanto o doador. E o doador – que neste caso tem “pouca sorte” – é um rapaz que está simplesmente pronto a compartilhar aquilo de que dispõe!
Duas síndromes que – na Igreja e também a nós, pastores e educadores – ainda nos afetam. Matar uma pequena esperança é mais fácil do que dar lugar à surpresa de Deus, uma surpresa que pode conduzir a uma – ainda que pequena – esperança. Deixar-se condicionar por clichês dominantes – para não aproveitar oportunidades que desafiam leituras e interpretações redutoras – é uma tentação permanente. Se não estivermos atentos, tornamo-nos profetas e executores da nossa própria ruína. À força de ficarmos fechados numa lógica humana – “academicamente” refinada e “intelectualmente” qualificada – o espaço para uma leitura evangélica torna-se tão cada vez mais reduzido que acaba por se esvair.
Quando essa lógica humano-horizontal se põe em crise, um dos sinais que suscita para se defender é o do “ridículo”. Quem ousa desafiar a lógica humana deixando entrar a suave brisa do Evangelho, logo será ridicularizado, atacado, zombado. Mas, estranhamente, quando isto se dá, podemos dizer que estamos perante uma senda profética: as águas começam a fluir…
Jesus e as duas síndromes
Jesus ultrapassa as duas síndromes “pegando” nos pães considerados poucos e, por consequência, irrelevantes. Jesus abre a porta àquele espaço profético e de Fé que nos é pedido habitar. Perante a multidão, não podemos contentar-nos com fazer leituras e interpretações autorreferenciais. Seguir Jesus implica transpor o raciocínio humano. Somos chamados a ver os desafios com os Seus olhos. Quando Jesus nos chama, não nos pede soluções, mas total doação de nós mesmos, com aquilo que somos e aquilo que temos. Todavia, há o perigo de que perante o Seu chamado, fiquemos parados, por consequência, escravos do nosso pensamento e ávidos daquilo que julgamos possuir.
Só na generosidade baseada no abandono à sua Palavra chegaremos a recolher a abundância do agir providencial de Jesus. “Recolheram-nos: e encheram doze cestos de pedaços, dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que tinham estado a comer” (v. 13): o pequeno dom do jovem frutifica de maneira surpreendente só porque as duas síndromes não tiveram a última palavra.
O Papa Bento XVI comenta assim este gesto do moço: “Na cena da multiplicação é indicada também a presença de um jovem que, perante a dificuldade de dar de comer a tantas pessoas, põe em comum aquele pouco de que dispõe: cinco pães e dois peixes (cf. Jo 6,8). O milagre não se realiza a partir do nada, mas de uma primeira partilha modesta daquilo que um jovem simples possuía. Jesus não nos pede aquilo de que não dispomos, mas faz-nos ver que se cada um oferecer o pouco que tiver, pode realizar-se sempre de novo o milagre: Deus é capaz de multiplicar o nosso pequeno gesto de amor e tornar-nos partícipes do seu dom” (Ângelus – 29 de julho de 2012).
Perante os desafios pastorais que se nos defrontam, perante tanta sede e fome de espiritualidade que os jovens mostram, há que não ter medo e não ficar amarrados às nossas coisas, aos nossos modos de pensar. Ofereçamos ao Senhor aquele pouco que tivermos, confiemo-nos à luz da sua Palavra. E que Esta – e só Esta – seja o critério permanente das nossas escolhas e a luz que orienta as nossas ações.
Por: P. Fabio Attard – Reitor-mor

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