Padre Fabio Attard celebra um ano como Reitor-Mor com fé, missão e esperança renovadas

Após doze meses à frente da segunda maior congregação religiosa do mundo, o Padre Fabio Attard, XI Sucessor de Dom Bosco, concedeu entrevista à Agência Salesiana de Notícias (ANS) para refletir sobre o primeiro ano de seu mandato como Reitor-Mor. O Reitor-Mor salesiano descreveu o período como um tempo de descoberta e confirmação. “Eu o descreveria como um ano de descoberta — a descoberta de uma realidade que é ao mesmo tempo variada e complexa”, disse. Mesmo assim, garantiu que uma certeza se manteve inabalável: “o fio condutor do Carisma Salesiano”, que viu manifestar-se nos mais diversos contextos da Congregação como prova viva de que “Dom Bosco está verdadeiramente vivo e presente”.
Dois episódios sobressaíram como os mais marcantes do período. O primeiro foi a celebração do 150º aniversário da Primeira Expedição Missionária Salesiana, que o levou a Turim e Gênova e o fez redescobrir “a grandeza de Dom Bosco — um homem de Fé, que ousou olhar para o mundo com visão missionária”. O segundo foi a visita do Conselho Geral ao Papa Leão XIV, descrita com emoção: “Nós nos imaginamos como Dom Bosco e seus Conselheiros encontrando-se com o Papa. Ele nos pareceu realmente como um pai que se encontra com seus filhos e os abençoa”.
Prioridades do Capítulo Geral orientam o caminho
Questionado sobre seus sonhos para o mandato, o Reitor-Mor preferiu falar em prioridades concretas. “Meus sonhos são justamente os de concretizar plenamente essas prioridades do Capítulo Geral 29”, afirmou, enumerando quatro eixos fundamentais: reforçar a centralidade de Cristo na vida cotidiana; desenvolver uma proposta pastoral atualizada e profissional; enfrentar os desafios da Inteligência Artificial; e aprofundar a formação salesiana como caminho de identidade carismática. “Minha satisfação vem do ver como estamos gradualmente avançando nessas direções”, declarou.
As mensagens do Papa Leão XIV também deixaram marca profunda. O Pontífice exortou os Salesianos a serem “proféticos e corajosos ao anunciar o Evangelho aos jovens neste contexto globalizado, no qual o vocabulário está mudando, as imagens estão mudando, a cultura está mudando e as situações sociais estão em constante evolução”. Em um segundo momento, incentivou a congregação a manter e ampliar sua presença missionária nos lugares mais perigosos: “Vocês têm força, têm experiência, têm recursos para estar presentes nas situações mais perigosas e desafiadoras. Vocês já estão fazendo isso: continuem a fazê-lo; e ainda mais”.
Congregação é vista como viva, engajada e proativa
Após visitar diversas regiões da Congregação, Padre Attard resumiu suas impressões em três palavras: “viva, engajada, proativa”. Explicou que a Congregação está “muito engajada em tentar ser o mais significativa possível para os jovens, especialmente para os jovens pobres” e “proativa ao responder às necessidades novas e emergentes”, com crescente atenção aos refugiados e ao trabalho de animação social.
Entre as preocupações mais frequentes que ouviu dos confrades, destacou duas. A primeira é a necessidade de crescer na identidade salesiana, para que ela não seja “enfraquecida por nossas atividades” num mundo globalizado. A segunda diz respeito aos recursos: “quanto mais nos dedicamos aos jovens, mais nos deparamos com suas necessidades e desafios”, sendo que tanto o capital humano quanto os subsídios materiais se mostram, por vezes, insuficientes. Para ele, no entanto, ambas as preocupações revelam “uma atitude positiva relativamente à nossa missão”.
Irmãos em zonas de conflito recebem apoio direto do Reitor-Mor
Em um mundo que o Reitor-Mor descreve como palco de uma “terceira guerra mundial fragmentada”, salesianos atuam em meio a conflitos armados, guerras civis e graves crises sociais. Padre Attard afirmou manter contato permanente com eles por todos os meios disponíveis, levando suas histórias pessoalmente ao Papa Leão XIV durante os encontros no Vaticano. O que mais o impressiona nesses confrades é “a determinação deles em permanecer”: “Apesar das dificuldades, não expressam o desejo de partir. O seu testemunho e dedicação são realmente uma honra para as pessoas a que servem e um incentivo para todos nós”.
Nas visitas às Américas, Ásia e Europa, o Reitor-Mor também identificou um traço comum entre os jovens: uma profunda sede de sentido. “Quando os ‘ouvimos’ de verdade, descobrimos seu desejo por espaços de relacionamento e pertencimento: buscam sentir-se ouvidos”, relatou. Nos momentos de silêncio e reflexão oferecidos nas casas salesianas, os jovens respondem positivamente, revelando “um desejo de comunidade e de sentido” e uma sede de espiritualidade “no sentido mais amplo do termo”.
Centro de Alta Formação busca aprofundar identidade carismática
Para responder à preocupação com a identidade, Padre Attard anunciou a criação de um Centro de Alta Formação Salesiana no Colle Don Bosco. A iniciativa não parte do zero: “Não se trata de criar algo completamente novo, mas de coordenar os cursos já existentes” nas áreas de Pastoral Juvenil, direção espiritual e liderança salesiana. O objetivo é atender também aos leigos que, cada vez mais, pertencem à missão “não apenas funcionalmente, mas também carismaticamente”.
O Conselho Geral, composto por dezesseis membros de doze países, opera com base no discernimento sinodal. “Ouvimos atentamente os desafios nas diferentes Regiões. Nós os interpretamos à luz do Capítulo Geral e do que Deus está a nos dizer hoje. Então, juntos, de forma sinodal, tomamos as decisões”, explicou o Reitor-Mor, ressaltando que “na sinfonia de vozes diferentes, procuramos discernir para onde o Espírito de Deus está a nos guiar”.
Colaboração com FMA e organismos internacionais fortalece presença global
A parceria com as Filhas de Maria Auxiliadora (FMA) é descrita como “assaz forte em muitos âmbitos”, destacando-se o Movimento Juvenil Salesiano e o setor escolar. Com outras congregações religiosas, embora nem sempre haja projetos formais em nível organizacional, há um “verdadeiro intercâmbio de experiências e de aprendizado”, tanto recebido quanto oferecido — recentemente, duas congregações solicitaram aos Salesianos sessões sobre liderança e boas práticas na formação e na Pastoral Juvenil.
No plano global, a Congregação está presente em Bruxelas por meio da Don Bosco International (DBI), nas Nações Unidas pela Don Bosco UN e junto à União Africana no continente africano. Essas presenças permitem “conectar as realidades locais às plataformas internacionais” e colaborar com organismos globais na educação e na formação profissional, “para garantir que esses projetos realmente cheguem aos jovens e contribuam para moldar seu futuro”.
Declínio vocacional convida a rever modelo pastoral
Sobre o ligeiro declínio numérico da Congregação, Padre Attard relacionou a chamada crise vocacional às transformações demográficas: o fim das famílias numerosas, a nuclearização familiar e a urbanização impactam o número de candidatos à vida consagrada, assim como já ocorreu na Europa e começa a se observar em partes da Ásia. “Essa mudança não deve ser interpretada como se alguém estivesse fazendo algo errado. Pelo contrário, ela nos convida a rever nosso modelo pastoral”, afirmou.
Paralelamente, ressaltou o crescimento expressivo de colaboradores leigos comprometidos com a missão. Hoje, a presença salesiana não se resume aos consagrados, mas à “Comunidade pastoral educativa — leigos e salesianos que compartilham a mesma missão”. Em relação à consolidação das presenças, foi categórico: “Não se trata de ter um ou dois salesianos espalhados por muitos lugares. Trata-se de ter Comunidades cuja própria vida é a mensagem”. Onde os números diminuírem, o caminho poderá ser unir presenças ou fechar algumas obras após sério discernimento — mas sem jamais enfraquecer a identidade.
Carisma salesiano fala universalmente apesar da diversidade cultural
Com 93 inspetorias em 137 países, a pergunta sobre como se mantém unidade numa congregação tão diversa é inevitável. Para o Reitor-Mor, a resposta está na força do próprio carisma: “A linguagem do carisma é a mesma” em qualquer Capítulo Geral, independentemente das origens dos participantes. As expressões e o vocabulário podem variar conforme o contexto cultural ou religioso, mas, “quando chegamos ao coração dos jovens — seu desejo de sentido, de amor, de acompanhamento — o Sistema Preventivo fala universalmente”.
A prioridade mais urgente para a missão salesiana hoje, segundo ele, é justamente a identidade. “Se perdermos nossa identidade de crentes que seguem os passos de Dom Bosco, corremos o risco de sermos moldados inteiramente pela cultura que nos rodeia. Apresentaríamos um produto, e não uma experiência”, alertou, enfatizando que a identidade “enraizada nos valores evangélicos e enriquecida pelo Sistema Preventivo” é o que permite oferecer “uma humanidade inspirada em Cristo”.
“Think tank” internacional vai enfrentar desafios da cultura digital
Sobre as rápidas mudanças digitais, Padre Attard revelou a proposta de um think tank internacional — não para produzir documentos, mas para promover “uma reflexão séria sobre a IA e a cultura digital no nível da liderança, com a ajuda de especialistas de todo o mundo”. A questão que orienta esse esforço é dupla: “como estamos integrando o digital em nossa missão e de que maneira o digital está moldando nossa maneira de pensar”. O Reitor-Mor lembrou que a Congregação já vinha trabalhando o tema antes mesmo da eleição do Papa Leão XIV, e que o destaque dado pelo Pontífice ao assunto “confirmou que estamos indo na direção certa”.
A contribuição específica que os Salesianos oferecem ao mundo, na visão do Reitor-Mor, é “a experiência do espírito de família”. Esse espírito se manifesta no acolhimento que faz visitantes dizerem “Parece que já estive aqui”, na amizade com os jovens como atitude — e não apenas como ação —, e na proteção concreta oferecida em zonas de conflito, onde “as pessoas correm para as Casas religiosas […] porque sabem que esses lugares são espaços de acolhimento e proteção”.
Oração e a palavra de Maria sustentam o Reitor-Mor no dia a dia
Questionado sobre o que o sustenta pessoalmente, Padre Attard foi direto: “O que me sustenta todos os dias é a vida de oração. Esta missão está enraizada em nossa Consagração. É nela que encontramos alimento, luz para as decisões e encorajamento para continuar a servir os jovens”. O versículo bíblico que escolheu como guia desde o início — “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5) — é, para ele, mais do que uma frase: é uma atitude. “Na cena evangélica de Caná, Maria não ofereceu uma solução; ofereceu uma atitude. Ela convidou à confiança e à escuta atenta”.
O momento mais feliz do ano foi, sem hesitar, o encontro com o Papa Leão XIV: “Recebeu-nos como Pai. Tratou-nos como a Filhos. Encorajou-nos profundamente. Esse foi realmente um momento decisivo para mim”. O mais desafiador, por sua vez, é contínuo: a preocupação constante pelos confrades em situações de guerra. “Todas as semanas estou em contato com eles, acompanhando-os no plano humano e espiritual”, afirmou, destacando que o feedback recebido é “profundamente comovedor”: “Eles se sentem parte da Congregação. Sentem-se acompanhados”.
Alegria e esperança são a mensagem para o segundo ano de mandato
Ao iniciar o segundo ano como Reitor-Mor, Padre Fabio Attard deixou duas palavras para cada salesiano no mundo: “Alegria e Esperança”. A alegria, explicou, nasce da consciência de que “o que estamos fazendo não é nosso — estamos respondendo ao chamado de Deus”. A esperança brota dessa mesma convicção, enchendo a Congregação de “confiança no futuro”.
Para o Reitor-Mor, trata-se de uma alegria que “se torna contagiante”: ao vivê-la, os salesianos dão testemunho dela; ao testemunhá-la, “oferecem sentido e Esperança aos Jovens”. E é assim, concluiu, que “o amanhã já está a se moldar hoje”.
Com informações: ANS

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