Lideranças Xavante se reúnem em Mato Grosso para defender o Cerrado com supervisão salesiana

Entre os dias 5 e 7 de março de 2026, na Aldeia Wairenê (São José), localizada na Terra Indígena Parabubure, em Campinápolis (MT), aconteceu uma importante assembleia do povo A’uwe Xavante. O encontro, organizado pela Associação Xavante Warã, reuniu cerca de 40 lideranças e caciques vindos de nove Terras Indígenas, incluindo Sangradouro, São Marcos, Areões e Pimentel Barbosa, para discutir os impactos socioambientais de grandes obras de infraestrutura que ameaçam o território tradicional, conhecido como Ró.
A Presença Salesiana e o Apoio Missionário
O evento contou com a participação do diácono José Alves de Oliveira, representante da Missão Salesiana e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Sendo o único não indígena presente na reunião, o diácono acompanhou as discussões a convite das lideranças para oferecer apoio técnico e institucional.



Em seu relato, José Alves enfatizou o papel da missão em possibilitar espaços de debate para que o próprio povo indígena tome consciência dos impactos em seus territórios. Ele destacou a necessidade urgente de que qualquer projeto respeite a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante às comunidades o direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) antes da implementação de obras que afetem seu modo de vida.
Ameaças ao Território
As discussões centraram-se em dois grandes projetos que preocupam o povo Xavante: a construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no Rio das Mortes e a implementação da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO), a EF-354. Segundo as lideranças, esses empreendimentos atendem aos interesses do capital e do agronegócio — voltados para a exportação de grãos e minérios — mas trazem consequências irreversíveis para a biodiversidade e a segurança alimentar das aldeias. “O licenciamento de grandes obras não pode ser visto de forma isolada”, aponta o documento final do encontro, destacando que a combinação de rodovias, hidrelétricas e o avanço da soja está “sufocando” as ilhas de biodiversidade do Cerrado.
Vigilância e Resistência
O evento culminou na redação da “Carta de Repúdio do Povo A’uwe Xavante”, um manifesto direcionado às autoridades governamentais e órgãos licenciadores. No documento, os representantes das nove Terras Indígenas reafirmam que não aceitarão um progresso econômico construído sobre o apagamento de sua cultura e a degradação do meio ambiente.
A mensagem central deixada pelo encontro ficou gravada no documento final: “O Ró é o corpo do povo Xavante. Quando ferem a terra com grandes obras sem o nosso consentimento, ferem o coração de cada A’uwe”. Sob a vigilância constante de suas lideranças e com o apoio de parceiros como a Missão Salesiana, o povo Xavante promete utilizar todos os meios legais para proteger seus direitos originários.

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